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A integração e o investimento em infraestrutura são sempre positivos – Renato Mosca de Souza

Data de lançamento:2018-05-10 17:42:16
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Intervenção na cimeira china-cplp

“A integração e o investimento em infraestrutura são sempre positivos”


Agradeço-lhes o convite dirigido ao embaixador do brasil na eslovênia para falar-lhes de assuntos que certamente não são de sua especialização. Agradeço-lhes por confiar-lhe essa missão. Move-o o desafio de tratar de temas que fascinam a todos, como a integração, a interdependência econômica e o advento do mundo global.

O vocábulo “integrar”, de nossa moderna língua portuguesa, deriva na matriz latina de “integrare”, que significa “tornar inteiro e completo”. A raiz é “tangere” ou “tocar”, que também nos legou os termos “íntegro” e “integridade”, para expressar o que é inteiro, não tocado e, por extensão, correto e honesto. Integração, íntegro e integridade compartilham raiz comum.

Verificamos que esses termos estão associados em nosso cotidiano. Por exemplo, para obter melhores resultados, estudantes e profissionais devem integrar-se ao ambiente escolar ou empresarial. O homem integra-se à sociedade e adapta-se ao padrão de consenso, o que resulta em harmonia social. Integrar-se é o melhor caminho e o mais correto. No mundo, não há espaço ao isolamento. A integração promove aproximação, afinidade, tolerância, paz e bem comum.

Contudo, embora o ser humano seja gregário por natureza, integrar não é tarefa fácil. Requer planejamento, dedicação e tempo. No caso dos países da comunidade de língua portuguesa, irmanados como estamos para preservar e promover nossa herança linguística comum, visamos igualmente à aproximação e ao fortalecimento de nossos laços de cooperação e amizade. Entendemos, como nos ensinou o padrão de fernando pessoa, poeta e filósofo que dispensa apresentação, que “o esforço é grande, e o homem é pequeno”. Porém, entendemos também que devemos trilhar com determinação e esperança o correto e honesto caminho da integração a que nos propusemos, ainda que difícil.


Recentemente, ouvi do professor português josé santos suas ideias sobre o acelerado processo de integração no mundo. Não tenho dúvida de que seu raciocínio lúcido teria muito a acrescentar sobre integração e processos econômicos nesta cimeira. Na sua ausência, aproprio-me de suas teorias, amplas e esclarecedoras, e sintetizo-as à guisa de ilustração. Antes, porém, verifico, sem acrescentar novidade, que o século xx, especialmente na segunda metade, experimentou inédito avanço dos processos de integração. Até mesmo as duas grandes guerras europeias foram denominadas mundiais pela capacidade de ultrapassar as fronteiras e produzir impacto em todos os continentes.

De acordo com santos, as décadas de 1970 e 1980 fizeram do mercado externo o motor das economias. Os países produziam bens nacionais e buscavam ampliar seus mercados estrangeiros. No brasil, por exemplo, defendeu-se estratégia comercial de que “exportar é o que importa”. Para crescer, era vital para as economias produzir bens e serviços e vendê-los no mercado internacional.

Desde a década de 1990, o mercado produtivo e exportador exclusivamente nacional foi perdendo terreno para um tipo de produção integrada em cadeias produtivas transnacionais que permitem que inúmeros países aportem contribuição a um único produto final. A partir de insumos oriundos de diversos países, os bens são produzidos por determinada economia mais competitiva e vendidos pelo planeta. Os celulares e tablets produzidos na china chegam aos estados unidos da américa para alívio das filas que se formam em frente aos pontos de venda de nova york.

Nos últimos anos, no entanto, um terceiro elemento tem-se afirmado: a inovação. Produzir e comercializar bens e serviços em escala mundial tornaram-se atividades crescentemente dependentes do conhecimento, da criação, da criatividade, em suma, da inovação. Não que antes fosse diferente. A inovação sempre desempenhou papel protagonista, mas a regra da atualidade é a inovação constante. O mundo em que vivemos é apenas um lapso de tempo antes do futuro e dos extraordinários avanços tecnológicos que estão por vir. Grandes e pequenas companhias recolhem conhecimentos e tecnologias em todas as partes do planeta e os utilizam como insumos de seus produtos finais. As “start-ups” são a expressão visível de empresas que reúnem conhecimentos, desenvolvem tecnologias e alimentam o setor produtivo e o mercado consumidor de inovações. Muitos operam nessas bases com seus próprios centros de desenvolvimento tecnológico. O futuro aponta para um mundo global e integrado na dinâmica de produzir conhecimento, sistematizá-los e oferecer inovações. Muito se fala de desglobalização e se apresentam fatos e argumentos para tentar comprová-la. Tendo a encarar os obstáculos como passageiros, nuvens que se dissipam no horizonte. A globalização é uma realidade que veio para ficar, e estamos somente no início.


Meus amigos,

Como sabemos, globalização tem a ver com integração, que pressupõe infraestrutura, que requer investimentos, que se viabilizam a partir de recursos auferidos pela competitividade e capacidade econômica de cada economia. O investimento é o combustível que move esse motor. Os fluxos de investimento direto estrangeiro global cresceram da média anual de us$ 50 bilhões, nos anos de 1970, para us$ 600 bilhões, a partir de 1990, e mais de us$ 1 trilhão atualmente. Antes da crise financeira de 2008, o mundo crescia em ciclo de liquidez e oferta de recursos e investimentos.

A china é um país que ao longo de sua história tem sido capaz de pôr em marcha projetos grandiosos de infraestrutura. O belt and road initiative, que reforçará a linha de contato no caminho entre pequim e veneza é um desses projetos em andamento. Um corredor que interligará muitas regiões do planeta por meio de diferentes modais de transporte e permitirá grandes avanços econômicos, pois facilitará os fluxos comerciais. Mas não só, também trará dividendos políticos, culturais e sociais ao permitir crescente circulação de pessoas, conhecimentos, tecnologias, ideias e visões de mundo cada vez mais integradas e globais.

A china demonstra compromisso com a integração, com a aproximação dos povos e com a promoção de elos firmes e duradouros. No meu entender, investimentos em infraestrutura jamais serão perda de tempo ou de dinheiro, mas serão sempre positivos na medida em que estabelecem os vínculos físicos entre os países. Esta é a força que move o desenvolvimento e a prosperidade do mundo. Assim como o brasil, um país de dimensões continentais como a china tem o enorme desafio de investir em sua própria conexão interna por intermédio de infraestrutura moderna e eficiente, o que por si só já é uma tarefa de dimensões épicas. Mas a disposição chinesa vai além, vale-se de sua experiência e capacidade para apoiar e ampliar a infraestrutura e a prosperidade de países amigos.


Nós, os membros da comunidade de países de língua portuguesa, também estamos sintonizados nessa frequência. Formada inicialmente em torno da língua comum que herdamos dos bravos irmãos ibéricos, o projeto comunitário de promover e difundir a língua portuguesa vai além. Compartilha os valores do desenvolvimento, da amizade, da cooperação, da democracia e da paz. Reunidos em 1996, durante a cimeira de chefes de estado e de governo, angola, brasil, cabo verde, guiné-bissau, moçambique, portugal e são tomé e príncipe formalizaram a comunidade. Em 2002 e 2014, respectivamente, timor-leste e guiné equatorial passaram a integrar o grupo. Assim, os nove países promovemos concertação político-diplomática e cooperamos em áreas como cultura, economia, saúde, educação e segurança alimentar, entre tantas outras. Entendemos que essas iniciativas de integração e de cooperação são especialmente necessárias para atender às demandas dos nossos povos, sem as quais nosso trabalho não terá cumprido o objetivo maior, qual seja, o da prosperidade de todos indistintamente.


Meus caros amigos,

A china foi, é e sempre será um grande e majestoso país com o qual o brasil mantém dinâmicas relações bilaterais. Desde 1993, brasil e china são parceiros estratégicos. Desde 2009, a china é o maior parceiro comercial do brasil pelo critério do fluxo de comércio. Desde 2012, as relações estão no nível de “parceria estratégica global”.  Nosso intercâmbio comercial em 2016 foi de cerca de us$ 60 bilhões de dólares. A demanda chinesa por produtos brasileiros cresce no mesmo ritmo de sua pujança. As condições de vida e a renda per capita de brasileiros e chineses elevam-se. Temos projetos comuns e pioneiros no campo da alta tecnologia e miramos o futuro com esperança e otimismo. A américa latina tem sido o segundo maior destino de investimentos diretos chineses, com cerca de 10 bilhões de dólares em 2016, superado apenas pelos investimentos chineses na ásia.

Macau, nesse contexto, como região administrativa especial, adquire ainda maior relevância como plataforma e elo de ligação e intercâmbio entre a china e os países de língua portuguesa. Por nossa trajetória histórica comum, macau é uma ponte em tempos em que os muros ameaçam erguer-se. Que nossas identidades de língua possam favorecer cada vez mais o fortalecimento de nossa amizade e o relacionamento entre nossos povos.

No brics, temos um objetivo de cooperação e entendimento que somente se reforçará no futuro. Em 2014, durante a vi cúpula do brics, no brasil, foi criado o novo banco de desenvolvimento e assinado o acordo contingente de reservas. Ambos ampliam os canais de obtenção de fundos para projetos de desenvolvimento. Em setembro passado, o presidente michel temer participou da nona cúpula do brics, em xiamen, quando se discutiram os principais temas do interesse mundial, como comércio, finanças, mudança do clima, desenvolvimento social, paz e segurança. Em visita que prestei ao embaixador da china na eslovênia, tive a oportunidade de manifestar-lhe em nome do governo os agradecimentos pela amável acolhida ao mandatário brasileiro.


“Não sei a hora, mas sei que há a hora” deixou-nos em legado o poeta universal português. Chegará a hora em que nos depararemos com um mundo sistemicamente integrado. Não me refiro com isso ao abandono de nossas características nacionais, cultura, tradição ou história, que tanto a china quanto os países lusófonos têm em profusão. Ao contrário, com base nesses aspectos, refiro-me à hora em que o homem aplicará todas as suas capacidades intelectuais, morais e materiais para viver sua existência em harmonia e livre dos flagelos com os quais a humanidade ainda convive, como a fome, a guerra e os desequilíbrios. Esse temporário estado de coisas será por certo superado pelo bem da humanidade e do planeta com mais integração, mais investimento, mais infraestrutura e mais prosperidade para todos. A mais alta das torres começa no solo. Muito obrigado pelo convite e pela atenção.





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