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Belt and Road Initiative: plataforma que multiplica redes de cooperação – Inguelore Scheunemann

Data de lançamento:2018-05-10 17:35:04
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Belt and Road Initiative: plataforma que multiplica redes de cooperação

Profa. Dra. Inguelore Scheunemann


As relações da China com outros países remonta a tempos milenares, haja vista a antiga Rota da Seda, possivelmente estabelecida no século VIII AC, através da qual o país não só se consolidou como uma potência comercial, estatuto que durou muitos séculos, bem como expandiu sua cultura e induziu a formação de outros territórios, incluindo países.

Tomando em consideração documentos da época, em especial, registros feitos pelos próprios viajantes/comerciantes chineses, a abrangência que a China atingiu não foi só territorial, mas também se estendeu a outros tipos de influencias e de interações estabelecidas com outros povos ao longo da Rota da Seda. Tais registros mostram que ocorreu ampla tolerância e interconexão religiosa, étnica e cultural o que pavimentou laços fortes e duradouros. Assim, a China teve sua preponderância econômica mundial por 18 dos últimos 20 séculos.


A história mostra que, após período de recolhimento, a China retoma sua política de estabelecimento de relações exteriores no século passado, no período pós final da Segunda Grande Guerra, primeiramente caracterizada por relações bi-laterais e posteriormente por tratados multi-laterais e participação em organizações multi-países.


Com o Brasil, a relações da China completaram 40 anos em 2014. Foram e são caracterizadas por tratados de cooperação nos campos comercial/industrial, científico/tecnológico, infra-estrutura, entre outros. Mais recentemente, a crise econômica mundial de 2008 mostrou-se como um marco para a expansão das relações entre os dois países, com incremento marcante nas relações comerciais, tendo, inclusive, ultrapassado, em alguns setores, a balança comercial Brasil-Estados Unidos, principal parceiro brasileiro por décadas. Mais recentemente, observa-se investimentos importantes na participação societária de grandes empresas, notadamente de energia elétrica, mas também de alimentos e logística, entre outros.


A criação dos BRICs, grupo de países formado por Brasil, Russia, India e China, que teve a inclusão da Africa do Sul posteriormente a  sua criação, estabeleceu objetivos compartilhados entre os cinco países e, uma crescente interconexão em aspectos econômicos e posições compartilhadas frente a questões estratégicas de âmbito global.

 

Portanto, a Republica Popular da China vem pavimentando suas relações com países e blocos de países em distintas regiões do mundo, não só incrementando suas relações comerciais e econômicas, mas intensificando sua importância como potência econômica e como país que passa a influenciar as decisões estratégicas de regiões geo-políticas e do planeta como um todo.


Adicionalmente, a partir destas conexões e tratados de cooperação, a RPC faz uma aposta grandiosa e de grande alcance, qual, seja a Belt and Road Initiative – BRI, bem como a nova Rota da Seda Marítima do Século XXI.


Esta nova Rota da Seda, no seu conjunto, admite conexões terrestres, por aviação e  por navegação e liga Asia do leste, ASEAN, SAARC, Oceano Indico, Africa e Europa. Mesmo tendo a certeza que todos que participam desta cimeira tem conhecimento da abrangência da BRI, permito-me cita-las para sublinhar a abrangência da política de formação de redes pela RPC. E, mais do que isto, o país não se fecha a outras regiões do mundo e, muito pelo contrário, declara que a BRI pretende incluir todos os países que se mostrarem dispostos a fazer parte desta grande interconexão, independentemente do desenho geográfico do planeta.

“The initiatives are open to all and countries that are interested in the initiatives which can participate in them. What China has offered is only the vision,” said Ou Xiaoli, deputy director-general of the Department of Western Region Development at the National Development and Reform Commission -NDRC.


Ademais, cuidaram as autoridades de registrar a abrangência de temáticas a fazerem parte desta cooperação, que vai desde energia limpa a comunicação por distintas plataformas, da educação a inovação, da ciência e tecnologia à cultura, da medicina tradicional chinesa à engenharia genética, do trem de alta velocidade ao uso do espaço exterior para fins pacíficos, de fármacos a produção e engenharia de alimentos, entre tantas realidades do momento e do futuro.


O mundo, primeiramente olhou para a abrangência e propósitos do BRI com incredulidade, posteriormente com dúvidas, agora como realidade pois a RPC teve o cuidado de torna-lo parte da constituição, lei maior do país.


Não podia ser outro o olhar das pessoas, dos politicos, dos estrategistas, dos países, dos blocos multi-países, das organizações internacionais pois, a despeito dos inegáveis, irrefutáveis avanços em ciência, tecnologia, inovação, a cultura da diaspora é uma realidade palpável, e com ela a cultura da violência, da agressão, da pretensa solução de problemas pela guerra, seja qual for a forma que ela assuma. Haja vista o Brexit, o conflito da Catalunha com seu próprio pais, da política de isolamento dos EUA, da guerra na Síria, dos conflitos com os curdos, da Coreia do Norte, além dos conflitos internos em países africanos, da horda de imigrantes que chegam a Europa, etc..  Passar da proposta, a programas e projetos e transforma-los em realidade é algo d muito incomum na história da humanidade.


O estabelecimento do Projeto “Belt and Road Initiative” demonstra que a China, através de seus governantes, tem consciência de sua importância no cenário mundial, não somente por criar uma plataforma logística de dimensões que o mundo moderno ainda não conhecia, uma plataforma de integração entre mais de 60 países por via terrestre e via marítima mas, em especial porque:


– com a iniciativa, mostra que entende que a integração entre países e entre povos não pode ser dependente tão somente de contactos à distancia física/geográfica, aqueles facilitados pelo uso da internet,

– com a iniciativa, demonstra que entende que a facilidade de locomoção de pessoas e mercadorias é fator de integração entre os povos,

– com a iniciativa, demonstra que é possível utilizar do conhecimento avançado e moderna tecnologia, e fazer com que a integração ocorra com uso de transporte a base de energia limpa,

– com a iniciativa, mostra que reconhece que a cultura de cada povo precisa ser vivida e compreendida pelos demais para que haja entendimento compartilhado de temas tão importantes como mudanças climáticas, água, florestas, preservação do meio ambiente, políticas de desenvolvimento sustentável e cultura da paz,

– com a iniciativa, demonstra seu real comprometimento com  o desenvolvimento dos países com os quais mantém relações bi-laterais e/ou multi-laterais.


Penso ser de suma importância discriminar os pontos acima mencionados, pois na minha percepção, a BRI por seu conteúdo temático e  estratégico, vai ao encontro dos grandes nós górdios de nosso presente e nosso futuro, configurados no acelerado avanço das tecnologias. Permitam-me explicar-me a seguir.


“A humanidade vai mudar nos próximos 20 anos mais do que que mudou nos últimos 300 anos.”  Esta assertiva, dos estudiosos de cenários futuros, nos diz que diferentemente de tempos anteriores quando os avanços tecnológicos e as sucedâneas inovações ocorriam em tempos distintos levando a mudanças comportamentais sucessivas, com lapso de tempo  suficiente para nossa adaptação, hoje, pela primeira vez na história, o conhecimento avançou e acumulou de tal forma que as inovações passaram a ocorrer, concomitantemente, em múltiplas áreas do conhecimento e são intensivamente promotoras de mudanças comportamentais em curtíssimos espaços de tempo.


Os novos conhecimentos em física, em especial física quântica, em biologia com seus múltiplos componentes mas especialmente a engenharia genética, e o acelerado avanço no mundo digital não só são as bases para geração de inovações de alto conteúdo tecnológico mas, sobretudo,  para inovações que interseccionam  tais tecnologias, talvez mais que isto,  fusionam estas tecnologias, tal como analisa Klaus Schwab em seu livro, A Quarta Revolução Industrial.


O exemplo mais visível e pessoal de tais avanços está no nosso dia a dia, ao utilizarmos os smartphones. Já não nos apercebemos que são uma extensão da nossa mente. E neste sentido, as análises de cenários futuros nos mostram que muito para além das realidades vivenciadas  no cotidiano, mais direta ou indiretamente, por todos nós – a comunicação em tempo real pela internet, o ensino via mídias digitais, as casas inteligentes, o aproveitamento da luz solar e dos ventos para geração de energia elétrica, os carros que dispensam motores mas também motoristas, os utensílios domésticos robotizados, as vacinas geneticamente produzidas, os tecidos humanos animais e vegetais produzidos em laboratório, a cura genética, as cirurgias  remotamente realizadas pelo uso de robôs, o implante de chips no cérebro que permitem a recuperação de movimentos em pessoas paralisadas,  as maquinas agrícolas que tudo calculam mas também dispensam trabalhadores,  os “drones” ou maquinas aéreas não tripuladas que entregam pacotes mas também lançam bombas – não param por aí.


E logo ali, nos anos 2030, a carne para alimentação humana produzida em laboratório,  a produção de órgãos humanos em laboratório para implantes, a remediação genética de órgãos e tecidos doentes e /ou envelhecidos,  a ultrassonografia fetal “impressa” em 3D, transmissão de jogos de futebol com geração de imagens holográficas … E, pouco mais adiante, a possibilidade de expandir a mente ligando-a a sistemas computacionais. Nos anos 2050, as maquinas/robôs, pensando como humanos será uma realidade absoluta.


De uma maneira geral, a nossa percepção se fixa na  transformação digital, da qual experienciamos as mudanças dependentes da digitalização, no dia a dia, em serviços privados e públicos. Mas esta é, tão somente, um dos indutores de  câmbios diários de paradigmas. As  hiper-mudanças que irão alterar a face da vida humana para sempre vão desde novas formas de  mobilidade de bens e pessoas, automação e a robotização, em algumas situações superficialmente mencionadas acima.


Admitamos que serão mudanças profundas de “modus vivendi”, comportamentais, com sérias conjecturas a respeito da desumanização da humanidade. Como proteger nossas formas mais verdadeiras de felicidade que envolvem empatia, compaixão e consciência? Espontaneidade? Mistério? Como estabelecer os critérios, rigores que nos mantenham no comando apesar das maquinas inteligentes, cujos sistemas são constituídos ao modelo das redes neuronais humanas?


Creio que o propósito da Belt and Road Initiative vai muito além dos acordos comerciais, muito além dos legítimos interesses econômico-financeiros, do apoio em desenvolvimento científico-tecnológico, em avanços em infraestrutura, entre outros apontados na BRI. Penso que existe o propósito de aproximar pessoas e povos pelo entendimento mútuo de culturas diferentes que resulta em redes de cooperação humanas, com manutenção de nossas características mais humanas onde se inclui a ética para o uso e incorporação das tecnologias que já existem e estão por vir.


Consciente da importância que tem a BRI tem para o mundo, seja como conceito, seja como demonstração de que é possível a cooperação de longo alcance, a RPC não pode falhar. O presente momento da história é diferente de todos os demais, pela velocidade das mudanças proporcionadas pelas avançadas tecnologias e requer análises permanentes a respeito de cenários futuros.


A decisão dos governantes chineses, em especial do Primeiro-ministro Xi Jinping,  em apostar na formação de grupos de pensadores estratégicos, “think thanks”, por regiões do globo,  significa que a diversidade de culturas, pensamentos e experiências é fator de peso para o prosseguimento seguro e  inclusivo da BRI. E, adicionalmente, mostra que o fator humano está fortemente presente, ou melhor, se constitui no fulcro desta ação permanente de interconexão e integração. Isto, para que o advento de tecnologias avançadas e seu uso proporcione bem estar, melhor qualidade de vida, diminuição das desigualdades entre povos e pessoas, e não a subversão da moral e da ética.


Para concluir, deixo algumas questões, para nossa reflexão, para que aprofundemos nossas analises sobre as interferências que a política de formação de redes da RPC pode ter no rumo das profundas mudanças à nossa frente:

  • Na agricultura, haverá mudança na produção de alimentos – qual alcance terá? Serão produzidos localmente? Em que dimensão serão produzidos em laboratórios ou “fabrica de proteínas animais e vegetais? Ou continuaremos com o cenário atual?

  • Em logística, ocorrerá mudanças no transporte de pessoas e de mercadorias – quais serão e qual alcance pode-se antever?

  • No campo social, haverá diminuição da pobreza extrema – com que alcance?

  • No campo social, haverá inclusão dos mais pobres na sociedade do conhecimento – com que amplitude?

  • Ocorrerá robotização/substituição do homem no trabalho – quais profissões, qual abrangência?

  • Como evoluirá a economia criativa – terá importância suficiente para proporcionar trabalho em larga escala?

  • Conseguirão as escolas e universidades mudar seu “modus operandi” frente a nova realidade – com que velocidade?

  • Alcançar a cultura da paz – é isto possível? Quais variáveis considerar ?

  • Um plano ético frente a “robotização da humanidade” – é possível?

 

Agradeço a atenção de todos.





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